Há lugares no Brasil ainda na moita. Um desses é o Parque Estadual de Terra Ronca, município de São Domingos, localizado a 400 km de Brasília, que abriga 260 cavernas, a maioria esculpidas por rios subterrâneos.

Créditos: Viramundo e Mundovirado

 

Nessa região predomina duas paisagens bem distintas: a que vemos, formada por arbustos retorcidos e palmeiras desgrenhadas pelo vento seco, que ladeiam monumentais paredões de rochas; e a não aparente, onde corre uma exuberante natureza --as cavernas de Terra Ronca.

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O nome do lugar, Terra Ronca, segundo nos contaram os antigos sitiantes da região, foi ideia dos primeiros que se aventuraram a passar pelas colossais e assustadoras bocarras das cavernas. Receosos foram aos poucos tateando na escuridão até ouvirem um ronco forte vindo do ventre da terra. A ressonância, nos explicam, podem ser rios velozes ou mesmo cascatas longínquas.

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Depois de mais de duas horas de caminhada pelo interior labiríntico e pedregoso de uma das cavernas, onde algumas vezes tínhamos que nos arrastar pelo chão, chegamos em um amplo e espaçoso salão com teto baixo. Então nosso guia nos propôs uma experiência única: deveríamos ficar calmos, desligar as lâmpadas de carbureto acopladas em nossos capacetes, e nos manter unidos. O breu total, somado à falta de localização é assustador. Depois de alguns segundos pudemos ouvir o som grave ressoando, vindo do coração das trevas. Sem exagerar, dava para sentir até mesmo uma leve vibração debaixo das nossas botas. Sabe o que mais? Nenhum de nós achou que fosse o som de um rio. E, o que seria então?

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O Parque declarado em 2000, Reserva da Biosfera pela Unesco, tem tudo para se tornar um dos principais conjuntos geoespeleológicos da América Latina. Os espeleólogos mapearam mais de 65 cavernas com extensão superior a um quilômetro, mas somando-se as pequenas, o número sobe para quase trezentas cavernas. O gigantismo subterrâneo dessas grutas do cerrado goiano, as coloca numa posição singular com as restantes do mundo, principalmente porque em seus interiores correm rios caudalosos.

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Nas extensas galerias e amplos salões das cavernas São Bernardo, São Vicente, Terra Ronca, e Angélica, iluminadas apenas pelas lâmpadas de carbureto, vimos florestas de estalactites e estalagmites, e curiosas formações de calcário denominadas cortinas, ninhos ou pérolas, travertinos ou degraus de piscinas e flores de aragonita e calcita.

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Sempre acompanhados de um guia credenciado, cruzamos rios subterrâneos com correnteza e água pela cintura para que Raimundo, um dos primeiros guias das cavernas, pudesse nos mostrar um amblipígeo, espécie de aranha dotada de palpos com espinhos, inofensiva para o homem, além de peixes albinos e cegos. Bandos de morcegos dormindo no teto reforçam o ambiente fantasmagórico dessas cavernas.

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A infraestrutura no Parque Estadual de Terra Ronca é precária. Nenhuma seta ou placa identifica a maioria das cavernas. Para complicar, grande parte delas se encontra em terras não desapropriadas, o que nos obriga a pedir permissão para entrar.

As caminhadas são árduas, sem sinal de sombra à vista. Mas a adrenalina aumenta quando de chofre deparamos com as entradas dessas cavernas. Algumas como a colossal abertura da Gruta Terra Ronca que dá nome ao Parque. Em sua abóbada de noventa metros de diâmetro, por onde corre o Rio Lapa, os mais ousados costumam praticar rapel.

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Quando se conhece o risco, não há risco

Segundo o ditado do aventureiro, “quando se conhece o risco não há risco”. Um passo em falso e você já é carta fora do baralho, portanto para viver essa aventura, escolha sobreviver, e alguns cuidados são mais do que necessários. Nunca entre numa caverna sem um experiente guia local e no mínimo em três pessoas. Equipamento constituído por roupa adequada, bota, agasalho, alimentos, água, lanterna, capacete e fonte carbureteira para a luz são imprescindíveis.

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